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A imprensa brasileira, sob ataque, precisa de assessoria de imagem – urgente

31/10/2018 – As dores que as fake news causaram ao longo do processo eleitoral surgiram como combustível para que a imprensa se fortalecesse como fonte segura e digna de informações. Muitas pessoas se viram perdidas entre saber o que era verdade e o que era fato ou fake, muito em razão de grupos compartilharem mentiras deslavadas originadas por fontes desconhecidas e/ou duvidosas; gravaram até vídeos apontando problemas inexistentes em urnas eletrônicas etc.

O canal da BandNews FM fica abarrotado de comentários depreciativos sobre jornalistas, como Ricardo Boechat.

Mas, tem sempre um “mas”.

Em grupos de WhatsApp, nos canais das redes sociais e em conversas presenciais (sim, ainda existem), veículos de comunicação de massa foram – e ainda são – seguidamente atacados por todos os lados da luta política e a liberdade de imprensa posta em dúvida. Vi diversos posts dos apaixonados apoiadores dos candidatos X e Y chamarem a imprensa de “lixo”, de “vendida”, de “parcial” e até mesmo desejando a morte de alguns jornalistas somente por terem expressado suas opiniões e análises e, assim, “influenciado negativamente o voto” no candidato preferencial desses fãs.

“Reclamar da cobertura e do conteúdo jornalístico é uma coisa;
atacar a liberdade de imprensa é pernicioso para a democracia.”

Muitas fake news foram geradas contra jornalistas que apenas fazem seu trabalho – uns têm independência para se expressar à vontade; outros seguem a linha editorial dos veículos para os quais trabalham. Mas quem ataca não quer saber de nada disso.

Agência Lupa confirma fake news contra Miriam Leitão, que circulou nas mídias sociais.

Os casos contra Miriam Leitão (apontada falsamente como assaltante de banco) e de Patrícia Campos Mello (Folha de S. Paulo) – ela denunciou o esquema de fake news patrocinada por empresários em prol de Jair Bolsonaro – chamaram bem a atenção de como muitos detestam serem contestados com reportagens e comentários e partem para minimizar ou difamar a imagem alheia.

Costuma ser o recurso de quem não tem argumentação.

Diariamente nas transmissões ao vivo da BandNews FM pelo Facebook, os jornalistas Ricardo Boechat e Reinaldo Azevedo são xingados avidamente pelos haters, que os acusam de tudo o que puderem imaginar – sem qualquer mínimo de evidência. Seguidamente, ambos emitem opiniões e posicionamentos dos quais eu discordo. Mas não é por isso que difamá-los (inclusive com fakes) vá resolver alguma coisa.

 

Reprodução de notícias pelo Google desmentindo fake news envolvendo a jornalista Patrícia Campos Mello e também sua matéria sobre a campanha de Jair Bolsonaro.

Entre as ‘toneladas’ de posts negativos aos quais tive acesso, muitos foram originados por gente com certa formação educacional e relacionamentos sociais maduros, pais e mães de família, de diferentes classes econômicas. Surpreendeu o baixo nível das avaliações que fizeram de jornalistas e veículos de imprensa: assusta qualquer um que sabe como as engrenagens do Jornalismo de redação funcionam.

Com atuação de algumas décadas no Jornalismo, bem que eu tentei argumentar algumas vezes, mas encontrei muitos cabeças-duras pela frente, imbuídos de atacar a imprensa gratuitamente, alheios à importância de haver imprensa crítica para ajudar a balizar, principalmente, até onde pode ir quem ocupa postos nas elites política, jurídica e econômica. Sem a imprensa, a Operação Lava-Jato, por exemplo, tenderia a ser um fracasso.

A forma como a Folha de S. Paulo, a TV Globo e outros veículos foram considerados como se estivessem a serviço de um partido político demonstra uma imaturidade ímpar desse público que alimentou (e ainda alimenta) a ação de ódio contra a imprensa.

Um dos muitos posts apelativos contra veículos de imprensa que circularam na rede WhatsApp.

A proliferação das críticas severas e desmedidas contra o Jornalismo desnuda uma necessidade dos veículos de imprensa: eles precisam de um bom serviço de assessoria de imagem para explicar à sociedade como a imprensa livre e democrática age e que no comando dos veículos pode haver pessoas jurídicas e físicas que preferem uma ou outra linha ideológica. E cabe ao público escolher quem respeitará e seguirá.

 

Se um veículo mentir, correrá o risco de perder admiradores; de ser processado judicialmente, como qualquer outra empresa ou cidadão. A imprensa brasileira não é perfeita ou imune a erros. Relacionar-se com ela não é tarefa fácil – e olha que eu tenho experiência nisso de muitos anos!

Mas onde a imprensa é controlada pelo Estado, ela é simplesmente inócua. E quem gosta disso é gente sem boas intenções, acredite. Reclamar da cobertura e do conteúdo jornalístico é uma coisa; atacar a liberdade de imprensa é pernicioso para a democracia.

*Sergio Cross é jornalista formado em 1988, atuou em veículos como Gazeta Mercantil e Folha de S. Paulo. É sócio-fundador da agência de Comunicação Corporativa Profissionais do Texto (1998), com sede em Brasília e atuação nacional.