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O que muda na Comunicação Corporativa no governo Bolsonaro?

29/10/2018 – (por Sergio Cross*) Não há tempo a perder, por isso publico este artigo logo no primeiro dia após a apuração dos votos. Comunicação tem que ser ágil para se adaptar aos acontecimentos, neste caso, à eleição presidencial e como ela vai influenciar nossas vidas, rotinas e negócios. Então, vamos lá. #LáVemTextão

A eleição do militar reformado Jair Bolsonaro para a Presidência da República remete todos à mesma época quando seu antagonista, o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, era escolhido pelo voto para o seu primeiro mandato presidencial.

Cercado de radicais da esquerda, muitos temiam que aquele Lula e seu grupo promovessem mudanças severas no status quo. No final, ele e o comando de seu partido enquadraram os radicais e governaram com boa dose de popularidade até serem pegos no contrapé com acusações de corrupção, processos judiciais e prisões.

A eleição de Bolsonaro repete o sentimento de insegurança que agora acomete boa parte da população, praticamente dividida no processo eleitoral presidencial.

Mas, afinal, quem é o Bolsonaro que vai subir a rampa do Palácio do Planalto?

Será o típico representante de uma extrema direita, defensora de valores que descontentam milhões de eleitores? Ou será o que irá imitar Lula ao frear os anseios dos radicais e brutamontes que o apoiam e tentar surpreender positivamente a maioria dos brasileiros?

Seja qual for o caso, a Comunicação precisa se adaptar aos ‘novos tempos’. Esteja você a favor ou contra o futuro governo.

Didatismo ao extremo

Empresas e entidades de classe devem adotar um discurso muito, mas muito mais didático do que o atual para justificar suas propostas, projetos, iniciativas, ideais e posicionamentos. Esta ‘turma nova de Brasília’ chega ao poder com o discurso de promover intensas mudanças e precisa de propostas esmiuçadas e também conectadas com aquele discurso, de modo a aceitar dedicar pelo menos um tempo para avaliar o que lhes for encaminhado. Um trecho pouco ou mal explicado pode inibir o eventual apoio político a uma demanda – por mais legítima que possa ser.

Antes, agora e depois

Sempre que possível, apresente comparações de cenários para consolidar os argumentos sobre suas propostas. Estabeleça metas factíveis e crie canais de interlocução (com governo, com imprensa, outros stakeholders etc.) para, periodicamente, apresentar a evolução dos resultados, em relação aos dos períodos antecessores.

Linguagem conservadora

Convém adotar um pouco mais de conservadorismo na linguagem ao tratar dos assuntos mais diversos. Há um choque cultural previsível à frente com a chegada dos futuros eleitos e seus indicados aos cargos do poder. Mesmo que seu setor de atuação não tenha ligação direta com o governo federal, lembre-se que mais da metade do eleitorado apoiou os conservadores na eleição presidencial. E você precisa falar com essa gente.

Enfrentamento

Se sua organização optar por adotar um posicionamento de enfrentamento, por simplesmente discordar dos pensamentos da nova equipe de governo, há também espaço para se dar bem ao atrair seguidores para a sua marca. Veja o exemplo de Starbucks, Google, Uber e Airbnb, que enfrentaram a determinação do presidente norte-americano Donald Trump de dificultar a vida dos imigrantes e refugiados nos EUA.

Para ficar de olho

Mas, se sua organização não quiser fazer muita marola no ambiente político, não esqueça que Bolsonaro e muitos dos seus têm origem militar, em que o respeito pela hierarquia e o costume de seguir ordens sem contestação devem ser levados em conta em qualquer ação de Comunicação, entre outras.

Analise as manifestações pré-eleitorais

Uma boa dica para coletar subsídios em prol da construção de um novo discurso empresarial é analisar as manifestações dos correligionários e do próprio Bolsonaro no período eleitoral. São uma boa base para reformular certos discursos. De preferência, sempre estabeleça links para mostrar como os posicionamentos/propostas das empresas e entidades irão, efetivamente, contribuir para abrir oportunidades de melhoria e gerar benefícios às pessoas e ao Brasil.

Preste atenção: se o discurso político é de mudança, há uma oportunidade imensa para que setores produtivos e outros abram espaço para dissolver gargalos que incomodam há décadas a economia e a sociedade. E o governo precisa que as organizações participem dessa iniciativa, apontando caminhos e promovendo o debate.

O caráter nacionalista será evidente nessa nova administração, mas acredito que não terá viés estatizante, como nos governos anteriores, que geraram profundo sentimento de insegurança jurídica em vários setores produtivos.

Propostas concretas e não de marketing

Entidades e empresas, vez ou outra, disparam press releases e campanhas mostrando que o que fazem e o que propõem podem, aparentemente, ‘mudar o mundo para melhor’ e blá, blá, blá. O exagero da mensagem puramente marqueteira deve dar lugar ao fato concreto: baixar a bola na hora de falar de si e concatenar um raciocínio lógico sobre a importância de sua atuação /proposição em prol da sociedade será o melhor caminho.

Não há ‘receita de bolo’ pronta

Lembra que eu falei do sentimento de insegurança, certo? Pois é, em razão dessa dúvida,  não há uma ‘receita de bolo’ pronta e acabada para a Comunicação Corporativa nesses novos tempos. É preciso adaptar a linha ‘editorial’ do conteúdo, à medida que conhecemos os rumos do novo governo. Tenha sempre por perto um ótimo consultor de Comunicação para cuidar disso com profissionalismo e estratégia, o que significa menos riscos.

Venham para Brasília!

Estou desde 1990 morando e trabalhando centralizado em Brasília – na Profissionais do Texto. O melhor conselho que posso dar para se adaptar rapidamente a esse novo cenário é: empresas e entidades devem se fazer presentes continuamente em Brasília, onde tudo é decidido neste País. Em especial, a Comunicação dessas organizações também deve ser exercida na Capital, pelo menos em parte. Afinal, é uma área de inteligência estratégica e não um mero apêndice informativo. E ela deve agir muito em sintonia com a área de relações institucionais.

Empresários e dirigentes de entidades que insistem em ignorar esta necessidade de presença física 24h em Brasília correrão grandes riscos de uma canetada mudar todo seu negócio ou setor. Agir à distância em relação ao centro do poder, confortavelmente de suas sedes em São Paulo ou Rio de Janeiro, não é um bom negócio.

Postura colaborativa

Por meio da Comunicação Corporativa, empresas e entidades devem oferecer colaboração voluntária para auxiliar o governo a debelar uma série de problemas que prejudicam toda a população. Entidades de classe têm mapeadas as questões que merecem intervenções do Estado porque geram problemas tanto para a produção quanto para a sociedade. São estudos que podem vir a ser muito úteis para a administração pública.

Manter bandeiras

Organizações que adotarem posições colaborativas irão, eventualmente, adotar novas bandeiras institucionais/empresariais. Mas não devem abdicar dos seus valores corporativos e das bandeiras institucionais que vêm defendendo ao longo dos últimos anos, como empoderamento feminino, inclusão social de pessoas até então discriminadas no mercado de trabalho, combate ao racismo, à homofobia ao feminicídio etc. Boa parte da sociedade perceberá se este rumo mudar.

No máximo, as organizações poderão adaptar o tom com que tais bandeiras serão defendidas: mais uma tarefa a ser desenvolvida continuamente, enquanto conhecemos melhor o que pensam os novos atores de Brasília.

Por mais que uma ou outra dessas bandeiras possa se chocar com as ideologias dos que apoiam Bolsonaro, é preciso que as organizações fortaleçam sua representatividade coletiva (por meio das entidades, por exemplo), de modo a igualmente reforçar a defesa de seus posicionamentos. Convém colaborar de um lado, mas, se for preciso, enfrentar de outro, para mostrar às novas autoridades o que a sociedade organizada realmente discute e defende para evitar retroatividade nos avanços conquistados até agora – sem, no entanto, transformar contra-argumentações em embates ideológicos. Ou vamos todos falar amém à Bancada da Bala do Congresso Nacional, por exemplo?

Fortalecer a imprensa

Por meio da Comunicação Corporativa, as organizações devem promover ações de parceria institucional e comercial para fortalecer a imprensa de massa. O Brasil não pode ver sua imprensa enfraquecer. A imprensa deve ter condições de se manter sólida para exercer seu papel de acompanhar, registrar e até fiscalizar as ações dos governantes.

Imaginem Donald Trump à solta nos EUA sem a imprensa norte-americana para criar uma barreira crítica? É o que pode vir a ocorrer aqui. Os sinais vêm sendo lançados desde a campanha eleitoral, com ofensas e ataques a jornalistas, a veículos de comunicação, a dirigentes de institutos de pesquisa, a integrantes do Judiciário, entre outros.

A imprensa não foi feita para falar bem de ninguém. Não é por isso que a imprensa crítica deve ser desdenhada e descartada. Ela é essencial para o equilíbrio institucional de uma nação. Inclusive, a nossa. E a Comunicação Corporativa tem que estar de olho nisso nesses ‘novos tempos’.

*Sergio Cross é jornalista e empresário, sócio-fundador da Profissionais do Texto.